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Investimentos Pessoais

CDB 100% do CDI ou LCI 90%? A matemática real do imposto de renda

Descubra por que aceitar 90% isento de IR pode render mais no bolso do que 100% tributável, e em quais situações específicas a liquidez do CDB vale mais que o ganho fiscal.

Ana Paula Souza
Ana Paula SouzaEditora Chefe de Planejamento Financeiro7 min de leitura
Imagem editorial ilustrando CDB 100% do CDI ou LCI 90%? A matemática real do imposto de renda

Você abre o aplicativo do banco e vê aquele CDB pagando 100% do CDI. Do lado, uma oferta de LCI a 90% do CDI. O cérebro puxa instintivamente para o 100%, afinal, dez é maior que nove. Mas esse raciocínio ignora o "leão" que está espreitando no final da linha: o Imposto de Renda. A pergunta que eu receço com mais frequência no editorial é justamente essa: vale a pena cair num rendimento bruto menor para não pagar imposto?

A resposta curta é: depende do prazo, mas na maioria das vezes, sim. A resposta longa envolve contas que a maioria das corretoras esconde em letras miúdas. Vamos desmistificar isso com números reais de 2026, sem economês, para você ver onde seu dinheiro realmente rende mais.

A armadilha do número maior

O maior erro do investidor iniciante é olhar para o percentual bruto como se fosse o valor líquido que vai cair na conta. CDBs (Certificados de Depósito Bancário) sofrem tributação regressiva, ou seja, quanto menos tempo você deixa o dinheiro aplicado, mais imposto paga. Começa em 22,5% para aplicações até 180 dias e cai até 15% acima de 720 dias.

Já a LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) são isentas. Paga zero de Imposto de Renda, independente do prazo.

Ao comparar CDB 100% com LCI 90%, você está, na verdade, comparando 100% menos imposto contra 90% limpo. Para descobrir qual vence, precisamos encontrar o "ponto de equilíbrio" (break-even point). A regra de ouro aqui é simples: a isenção fiscal compensa se a rentabilidade líquida do CDB for menor que a da LCI.

Vamos fazer as contas para o pior cenário do CDB, que é o prazo mais longo, onde o imposto é menor (15%):

  • CDB 100% (após 2 anos): Você ganha 100, mas o Leão come 15%. Sobra 85% líquido.
  • LCI 90% (qualquer prazo): Você ganha 90, o Leão não come nada. Fica 90% líquido.

Neste cenário de longo prazo, a LCI 90% ganha do CDB 100% por uma margem de 5%. Agora, se você resgatar antes de seis meses, o imposto sobe para 22,5%. O CDB cairia para 77,5% líquido, tornando a diferença para a LCI (90%) ainda mais abissal: 12,5% de vantagem para a isenção.

Então, matematicamente, é quase impossível para um CDB 100% vencer uma LCI 90% em rentabilidade pura. Onde está o problema, então?

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Onde a LCI 90% perde feio: liquidez

Se a matemática favorece a LCI, por que o CDB 100% é tão popular? A resposta chama-se liquidez imediata.

A maioria dos CDBs grandes bancos que pagam 100% do CDI — como os encontrados no Nubank, Inter ou no BTG itself — permite que você resgate o dinheiro no mesmo dia e ele caia na sua conta na hora. Já as LCIs e LCAS que pagam 90% geralmente vêm com carência. Muitas exigem que você deixe o dinheiro travado por 90, 180 ou até 720 dias. Se tentar sacar antes, a penalidade pode perder todo o ganho.

Você precisa ser brutalmente honesto com seu planejamento. Esse dinheiro é para uma viagem no fim do ano ou é para comprar um apartamento daqui a cinco anos? Se é dinheiro de reserva de emergência, onde você pode precisar acessar o recurso amanhã, esqueça a LCI. A liberdade de sacar sem pagar multa vale mais que os 5% a mais de rentabilidade. Para blindar sua reserva, a liquidez é rei, como mostro neste guia sobre como blindar sua reserva de emergência da inflação atual.

Cenário prático: aplicando R$ 50.000 por 2 anos

Nada substitui colocar os números no papel. Vamos assumir um cenário realista de 2026, com o CDI girando em torno de 9,75% ao ano (uma projeção conservadora pós-ajustes da taxa básica). Você tem R$ 50.000 para investir e está em dúvida entre um CDB de um banco grande (100% do CDI, liquidez diária) e uma LCI de um banco médio (90% do CDI, carência de 90 dias). O objetivo é deixar o dinheiro parado por 2 anos.

Opção A: CDB 100% do CDI

  • Rentabilidade bruta: 9,75% ao ano.
  • Tempo: 2 anos (cai na alíquota de 15% de IR).
  • Fator de ganho bruto em 2 anos: 1,204.
  • Valor bruto: R$ 60.200,00.
  • Imposto de Renda (15% sobre o lucro de R$ 10.200): R$ 1.530,00.
  • Valor líquido na conta: R$ 58.670,00.

Opção B: LCI 90% do CDI

  • Rentabilidade bruta: 8,77% ao ano (90% de 9,75%).
  • Tempo: 2 anos (Isento).
  • Fator de ganho em 2 anos: 1,183.
  • Imposto de Renda: R$ 0,00.
  • Valor líquido na conta: R$ 59.150,00.

Resultado: A LCI 90% rendeu a mais. A diferença aqui é de R$ 480,00. Não é uma fortuna que muda a vida, mas é dinheiro que você não deu para o governo. Em valores maiores, digamos R$ 200.000, essa diferença salta para quase R$ 2.000,00. E o mais importante: a LCI ganhou mesmo pagando 10% a menos no spread inicial.

Quando o CDB 100% é a única escolha inteligente

Existem dois cenários onde eu recomendo ignoro a vantagem matemática da LCI e fico com o CDB 100%.

O primeiro é quando o banco oferece um CDB "pós-fixado" de curto prazo com liquidez diária para sua reserva. Se você perder o emprego amanhã, você não pode esperar 90 dias para a carência da LCI passar. O custo de oportunidade de ficar sem liquidez em uma emergência é altíssimo.

O segundo, e menos óbvio, é o risco de crédito (calote). O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) cobre até R$ 250.000 por CPF por instituição financeira. Bancos menores costumam pagar LCI a 110% ou 120% para atrair dinheiro. Bancos grandes pagam menos. Se o banco que paga a LCI 90% for "mais seguro" na sua percepção do que o banco que paga o CDB 100%, vale a pena o sacrifício de rentabilidade pela tranquilidade. Lembre-se que renda fixa tem risco sim, principalmente se você precisar sair antes da hora e pegar o CDI no resgate, como explicamos no post sobre por que seu CDB pode dar prejuízo se resgatado antes.

A tática do "combo"

Eu uso uma estratégia de combo aqui no meu planejamento pessoal e sugiro para leitores que já têm uma bagagem maior. Eu divido meu dinheiro fixo.

Eu deixo a minha reserva de emergência total em CDB de liquidez diária (mesmo pagando 100% e sofrendo IR). Isso é meu "colchão de segurança". Mas todo dinheiro que eu destino para juntar entrada de casa, comprar um carro daqui a 3 anos ou fazer aquela viagem grande, eu jogo em LCI/LCA isenta.

Por que? Porque eu sei que não vou precisar desse dinheiro amanhã. Eu assumo a carência de 90 ou 180 dias em troca de não pagar imposto. Com o CDI na casa dos dois dígitos como em 2026, pagar 15% ou 22,5% de imposto é jogar dinheiro fora se você tem a disciplina de não mexer no valor.

O veredito final

Se você tem a certeza de que não vai precisar tocar no dinheiro pelos próximos meses ou anos, escolha a LCI 90%. Mesmo pagando menos percentual, a isenção fiscal faz o saldo final crescer mais que o CDB 100%. No cenário econômico atual, onde pequenas margens definem o sucesso do investimento, deixarmos de dar quase 20% do lucro para o Leão é um luxo que apenas iniciantes se dão.

Agora, se esse dinheiro tem função de proteção ou você tem o pé atrás de ficar preso em uma aplicação, fique no CDB 100%. O custo do imposto é o preço que você paga pelo seguro de poder sacar seu dinheiro a qualquer segundo. O maior erro não é escolher um ou outro, é misturar as finalidades: usar LCI de carência para gastos de curto prazo ou CDB tributável para longo prazo com grana parada.

Não olhe só para o rótulo "100%" na vitrine. Olhe para o que sobra no seu bolso depois de descontar o "frete" do imposto. Lá, a LCI de 90% quase sempre é a mais bonita. E se o seu objetivo é construir patrimônio de verdade, juros compostos sobre valores isentos crescem muito mais rápido do que parecem.

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