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Investimentos Pessoais

Qual título do Tesouro comprar para cada meta de tempo (1, 5 e 10 anos)

Descarta a incerteza na hora de investir: mapeamos exatamente qual título do Tesouro Direto casa com seus prazos, do celular novo à aposentadoria, para evitar prejuízo com marcação a mercado.

Ana Paula Souza
Ana Paula SouzaEditora Chefe de Planejamento Financeiro7 min de leitura
Imagem editorial ilustrando Qual título do Tesouro comprar para cada meta de tempo (1, 5 e 10 anos)

Abra o extrato da sua corretora agora. Ali estão dezenas de códigos que parecem senha de Wi-Fi: Tesouro Selic 2029, IPCA+ 2035, Prefixado 2029. Para quem está começando, a dúvida não é "devo investir?", mas sim "qual desses eu não quebro se precisar do dinheiro daqui a um ano?". O erro mais comum que vejo nas consultorias é escolher o papel pela rentabilidade máxima, ignorando que o tempo é o fator determinante do risco na Renda Fixa.

Não existe "o melhor título". Existe o título que casa com a data em que você vai gastar aquele dinheiro. Se você comprar um papel de longo prazo para uma meta de curto prazo, pode ter um prejuízo real de 5% a 10% na hora do resgate por causa da tal "marcação a mercado". Vamos destrinchar isso em três estratégias diretas, com prazos e papéis definidos, para você aplicar com segurança.

Para descomplicar o curto prazo: liquidez imediata é o único requisito

Se você precisa do dinheiro em até 12 meses, seja para aquele emoji no final do ano, a viagem de férias em julho ou pagar o IPVA, ignore qualquer promessa de IPCA+ ou juros altos. Aqui, a regra é matemática pura: você não tem tempo para esperar o mercado se recuperar se os juros subirem repentinamente e o preço do papel cair.

O título obrigatório aqui é o Tesouro Selic 2029 (ou a versão mais nova disponível na data da sua compra). Ele tem uma característica única: acompanha a taxa básica de juros da economia diariamente. Por causa disso, ele não sofre com a volatilidade de preço dos outros títulos. Se a Selic subir, ele renderá mais; se cair, ele renderá menos, mas o valor investido (o principal) não oscila como os demais.

O custo disso é uma rentabilidade menor que a da inflação no longo prazo, mas para o curto prazo, a segurança compensa.

  • Cenário concreto: Você tem R$ 5.000 para gastar no Natal de 2026. Compra o Tesouro Selic hoje. Em dezembro, a taxa Selic pode estar 9,5% ou 11%, isso não importa. Você resgata o valor principal acrescido dos juros diários acumulados. Se precisar sacar antes por uma emergência, a corretora liquida em D+1 (dia útil seguinte) e você não perde um centavo do que investiu.

Preste atenção apenas na taxa de custódia da B3 (atualmente R$ 30 ao ano, cobrado no primeiro semestre) e na taxa de administração da sua corretora. Se sua corretora cobra taxa para Tesouro Direto, mude. Hoje, grandes bancos como Nubank, Inter, XP e Modal não cobram nada para pessoas físicas. Se você for investir pouco dinheiro, verifique se a corretora isenta a taxa de custódia para investimentos abaixo de R$ 10.000, caso contrário, essa tarifa pode comer até 0,5% do seu rendimento.

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Horizonte de 5 anos exige coragem para ignorar a marcação a mercado

Aqui entra a zona onde a maioria das pessoas se assusta. Quando olhamos para prazos de 3 a 5 anos — como a entrada do apartamento, o intercâmbio ou um carro novo —, o Tesouro Selic deixa de ser interessante porque a inflação tende a corroer o ganho. Você precisa de proteção inflacionária ou juros reais fixos.

Para este perfil, o Tesouro IPCA+ 2030 ou 2035 (títulos que vencem próximo da sua meta) é a escolha mais inteligente. Ele garante que você vai ganhar a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa de juros real, definida no momento da compra. Se você comprou IPCA+ 6%, e a inflação for 4%, você ganha 10%. Se a inflação for 8%, você ganha 14%.

O problema é o "susto" do meio do caminho. Diferente do Selic, o preço desse papel oscila diariamente na bolsa. Se a inflação futuro projetada pelo mercado subir, o preço do seu título pode cair no curto prazo.

  • Cenário real: Imagine que você investiu R$ 20.000 no IPCA+ 2035 em 2026 para a casa própria em 2031. No terceiro ano, o Governo anuncia uma mudança na política econômica e o mercado projeta mais inflação. O preço do seu papel cai para R$ 18.500 no extrato. Se você entrar em pânico e vender, você realiza o prejuízo de R$ 1.500. Mas se você segurar até 2031, o Tesouro Nacional te pagará o valor de face acrescido da inflação, e aquele "prejuízo" de papel desaparece.

A regra de ouro para essa faixa de tempo é: olhe apenas para o vencimento do título, ignore o saldo diário. Não vale a pena estresse verificar o valor a cada semana. Se você tem perfil ansioso, talvez um CDB Liquidez Diária de um banco sólido seja melhor, mas você pagará Imposto de Renda e provavelmente terá rendimento pós-fixado ao CDI, que historicamente perde para o IPCA em ciclos de juros baixos.

Se você quiser entender melhor como funciona essa oscilação de preço que assusta muita gente, explico aqui por que sua Renda Fixa 'sem risco' pode dar prejuízo se resgatada antes da hora.

Por que não o Prefixado?

Muitos investidores se sentem atraídos pelo Tesouro Prefixado 2029 ou 2031 quando veem uma taxa de 12% ao ano parecendo alta. Para 5 anos, Prefixado é um jogo perigoso. Você está travando uma taxa nominal. Se a inflação disparar (acima de 6% ou 7% ao ano), o seu ganho real decai, ou pode virar prejuízo real.

Para quem não entende de economia, errar a projeção de inflação por 5 anos é fácil. O IPCA+ remove essa incerteza. O Prefixado só deve entrar na carteira se você tiver certeza absoluta que a inflação vai ser baixa, ou como parte pequena de uma diversificação, nunca como núcleo de uma meta de 5 anos.

Planejamento de 10 anos ou mais: a mágica dos Juros Semestrais no IPCA+

Quando olhamos para prazos longos, como aposentadoria antecipada ou a faculdade de um filho recém-nascido, o foco muda da proteção para a acumulação. Aqui, o reinvestimento é seu melhor amigo.

Neste cenário, meu título favorito é o Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 ou 2055. A diferença dele para o anterior é que, a cada seis meses, o Tesouro deposita os juros na sua conta. Você não precisa vender o papel para gerar caixa.

Para quem tem disciplina, essa é a máquina de juros sobre juros mais potente que existe para o pequeno investidor hoje.

  • Exemplo prático: Você quer juntar R$ 100.000 para a faculdade da sua filha em 15 anos. Compra o IPCA+ Juros Semestrais. A cada 6 meses recebe R$ 500 (exemplo) na conta. Se você reinvestir esses R$ 500 imediatamente comprando mais títulos, você começa a ganhar juros sobre os juros.

Compare isso com o mesmo valor aplicado em um CDB de longo prazo que paga apenas no vencimento. Com o CDB, você só vê o dinheiro trabalhar no final. Com o Juros Semestrais, o dinheiro cicla. Para quem quer organizar a educação dos filhos sem depender de programas governamentais, essa estrutura é fundamental.

O cuidado com o imposto de renda no longo prazo

Lembre-se que o Tesouro Direto tem Imposto de Renda regressivo. Se você ficar 10 anos, paga 15%. Se fizer 1 ano, paga 22,5%. No longo prazo, essa eficiência tributária ajuda bastante.

Porém, existe um competidor de peso para prazos acima de 10 anos: as LCIs e LCAs de bancos médios que isentam o IR. Se você encontra uma LCA de longo prazo pagando 90% do CDI (que flutua com a Selic), pode valer a pena trocar um IPCA+ fixo (digamos, IPCA+ 5%) pela LCA 90% se você acha que os juros básicos vão se manter altos por décadas. Hoje, no cenário de 2026, apostar que a Selic vai ficar acima de 9% por 10 anos é arriscado. Eu preferiria o IPCA+ garantido, pagando o imposto, do que depender da sorte da taxa básica na LCA.

Se você está em dúvida sobre a carga tributária, fiz uma comparação detalhada entre um CDB 100% do CDI e uma LCI 90% para ver qual compensa mais no seu bolso.

O passo seguinte não é comprar, é verificar

Antes de clicar em "confirmar", pegue seu celular e abra o simulador do próprio Tesouro Direto. Coloque o valor que pretende investir e a data futura que pretende resgatar. O simulador vai te mostrar exatamente quanto você vai receber se carregar até o fim.

Escolha o título pelo vencimento, não pela rentabilidade atual. Se sua meta é 2030, não compre o 2029 só porque a taxa parece melhor hoje. O maior risco do investidor de Renda Fixa não é quebrar o banco (garantia do Tesouro), é errar a data da necessidade e ter que vender o título em um momento de mercado desfavorável. Alinhe o vencimento do papel com a realização do seu sonho e o risco desaparece.

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